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Senado dos EUA avança com medida que restringe poderes de guerra de Trump contra o Irã

Senado

Foto: Reprodução
Por: Rádio Plenitude

O Senado dos Estados Unidos avançou nesta terça-feira (19) com uma medida que busca limitar os poderes de guerra do presidente Donald Trump no conflito contra o Irã, em uma votação que expôs fissuras crescentes dentro do próprio Partido Republicano. A proposta, baseada na Lei de Poderes de Guerra, pretende obrigar o governo a retirar as forças americanas das hostilidades envolvendo o Irã, a menos que o Congresso aprove formalmente a continuidade da operação militar.

A votação terminou em 50 a 47 a favor do avanço da medida. O resultado não significa aprovação final, mas abre caminho para que o texto seja submetido a uma nova votação no Senado. Ainda não há data definida para essa etapa. Mesmo assim, o placar representa um revés político para Trump, que vinha contando com o apoio da maioria republicana para barrar iniciativas semelhantes desde o início da ofensiva americana contra o Irã, no fim de fevereiro.

O ponto decisivo foi a mudança de posição do senador republicano Bill Cassidy, da Louisiana. Cassidy votou pela primeira vez a favor de uma resolução destinada a restringir a condução da guerra pelo presidente. A decisão ocorreu poucos dias depois de ele sofrer uma derrota nas primárias republicanas de seu estado, em uma disputa na qual Trump apoiou seu adversário. A mudança de voto foi suficiente para permitir o avanço da proposta, somando-se aos republicanos Rand Paul, Susan Collins e Lisa Murkowski, que já haviam apoiado iniciativas semelhantes.

Desde que Trump ordenou ataques contra o Irã, parlamentares democratas vêm pressionando por votações sucessivas para tentar recuperar o papel do Congresso nas decisões sobre guerra e paz. A Constituição americana atribui ao Legislativo o poder de declarar guerra, enquanto o presidente atua como comandante-chefe das Forças Armadas. Na prática, porém, presidentes de ambos os partidos ampliaram ao longo das últimas décadas o uso da força militar sem declarações formais de guerra, o que transformou a Lei de Poderes de Guerra de 1973 em um dos principais instrumentos de contenção do Executivo.

A proposta em discussão determina que Trump retire as tropas americanas das hostilidades contra o Irã, salvo se houver uma declaração de guerra ou uma autorização específica aprovada pelo Congresso. Para os defensores da medida, a guerra não pode continuar baseada apenas na decisão unilateral da Casa Branca. Senadores democratas argumentam que a campanha militar já ultrapassou o limite político e constitucional aceitável sem aval legislativo claro.

A Casa Branca, por outro lado, sustenta que o presidente agiu dentro de suas prerrogativas para proteger interesses americanos e responder a ameaças atribuídas ao Irã. Aliados de Trump afirmam que limitar a ação militar neste momento enfraqueceria a posição dos Estados Unidos no Oriente Médio e enviaria um sinal de divisão aos adversários. Republicanos contrários à resolução também dizem que o Congresso não deve interferir em operações ainda sensíveis, especialmente em um cenário de cessar-fogo frágil.

O debate ocorre em meio a um conflito que já produziu efeitos internos nos Estados Unidos. A guerra contra o Irã elevou a pressão sobre os preços dos combustíveis, aumentou a preocupação com a segurança de militares americanos na região e reacendeu o temor de uma escalada mais ampla no Oriente Médio. Embora a situação esteja sob um cessar-fogo considerado instável, parlamentares de ambos os partidos demonstram desconforto com a falta de clareza sobre os objetivos finais da operação.

Para os democratas, o avanço da medida é uma vitória política importante, ainda que o caminho para sua aprovação final continue difícil. Mesmo se passar pelo Senado, a resolução precisaria enfrentar obstáculos na Câmara dos Representantes, onde a liderança republicana tem se alinhado à Casa Branca em temas de segurança nacional. Além disso, Trump poderia vetar a medida caso ela chegasse à sua mesa. Para derrubar um veto presidencial, seriam necessários dois terços dos votos nas duas casas do Congresso, uma barreira considerada alta no atual ambiente político.

Ainda assim, a votação desta terça-feira tem peso simbólico. Até agora, os republicanos haviam conseguido bloquear repetidamente resoluções sobre poderes de guerra relacionadas ao Irã. O novo placar indica que a paciência de parte do partido começa a se esgotar, especialmente entre senadores que defendem uma leitura mais restrita do poder presidencial em conflitos externos. Rand Paul, por exemplo, há anos critica intervenções militares sem autorização do Congresso. Collins e Murkowski também costumam se afastar da linha dura trumpista em votações institucionais.

A adesão de Cassidy acrescenta um elemento político adicional. Após perder apoio dentro de sua própria base, o senador retornou a Washington afirmando que continuaria avaliando as prioridades do governo Trump com base em sua interpretação da Constituição. Seu voto foi lido por analistas como um sinal de independência em relação ao presidente, mas também como reflexo das tensões internas no Partido Republicano entre lealdade política e limites institucionais.

A guerra contra o Irã se tornou um dos principais testes de autoridade do segundo mandato de Trump. O presidente argumenta que sua estratégia reduziu ameaças contra os Estados Unidos e seus aliados, mas críticos afirmam que a operação foi iniciada sem explicações suficientes ao Congresso e à população. Audiências fechadas no Capitólio, com autoridades de segurança nacional, não dissiparam todas as dúvidas sobre a duração, os custos e os riscos da campanha.

O avanço da resolução não encerra a disputa. Pelo contrário, inaugura uma nova fase de pressão sobre senadores republicanos ausentes na votação desta terça-feira e sobre líderes da Câmara. Se esses parlamentares mantiverem posição contrária, ainda poderão derrotar a proposta na votação final. Mas o simples fato de a medida ter avançado mostra que o debate sobre os poderes de guerra voltou ao centro da política americana.

No fundo, a discussão vai além do Irã. Ela recoloca uma pergunta antiga em Washington: até que ponto um presidente pode levar o país a um conflito militar prolongado sem autorização explícita do Congresso? A resposta ainda está em disputa, mas a votação desta terça-feira mostrou que, mesmo em um partido fortemente influenciado por Trump, há senadores dispostos a desafiar a Casa Branca quando o tema é guerra.