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Por: Rádio Plenitude
Uma investigação da Polícia Federal (PF) revelou que uma empresa sediada no Distrito Federal, supostamente operada por um diretor de uma unidade da Congregação Cristã no Brasil (CCB), recebeu R$ 18 milhões de uma holding investigada por atuar como núcleo de uma megaestrutura de lavagem de dinheiro. A holding em questão, Arpar Administração, Participação e Empreendimento S.A., é apontada como responsável por movimentar milhões através de dezenas de empresas de fachada, processando recursos oriundos de diversas atividades ilícitas, incluindo a “Farra do INSS”, tráfico de drogas, comércio ilegal de armas, apostas clandestinas e pagamento de propinas.
As revelações, que vieram à tona a partir de um inquérito da PF e documentos com quebra de sigilos solicitados pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, lançam uma sombra sobre a reputação da instituição religiosa e levantam sérias questões sobre a fiscalização e a transparência de movimentações financeiras no país. A complexidade do esquema e o envolvimento de uma figura ligada a uma organização religiosa de grande porte destacam a sofisticação das redes criminosas e os desafios enfrentados pelas autoridades na luta contra a lavagem de dinheiro.
A Arpar Administração, Participação e Empreendimento S.A. é o epicentro do esquema investigado. Segundo a Polícia Federal, a holding teria orquestrado uma vasta rede de empresas de fachada para dissimular a origem e o destino de milhões de reais. Os recursos, conforme as investigações, provinham de uma gama diversificada de atividades criminosas, com destaque para a “Farra do INSS”, um esquema de descontos ilegais na Seguridade Social que lesou milhares de beneficiários.
Além dos desvios do INSS, a Arpar também teria processado valores supostamente ligados a crimes graves como tráfico de drogas, comércio ilegal de armas e apostas clandestinas. A utilização de empresas de fachada permitia que o dinheiro ilícito fosse “lavado”, ou seja, inserido no sistema financeiro legal, dificultando o rastreamento pelas autoridades. Este modus operandi é comum em grandes esquemas de lavagem de dinheiro, onde a complexidade das transações visa obscurecer a verdadeira natureza dos fundos.
No centro desta investigação está a empresa Isabela V R O Ltda., registrada com endereço em um coworking na Asa Sul, em Brasília. Formalmente, a empresa está em nome de uma moradora de Valparaíso de Goiás, no Entorno do DF, que, surpreendentemente, permaneceu inscrita no Cadastro Único do Governo Federal, recebendo R$ 750 do Bolsa Família e trabalhando em empresas privadas com salário mínimo, mesmo figurando como proprietária de uma empresa que movimentou milhões.
Um Relatório de Inteligência Financeira (RIF) produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) indicou que a Isabela V R O Ltda. integrava um grupo econômico ligado a Paulo Henrique Venancio da Rocha, diretor de uma unidade da Congregação Cristã no Brasil no Distrito Federal. O documento revelou que diferentes CNPJs eram utilizados para distribuir o faturamento entre as empresas do grupo, operando de forma predominantemente digital a partir de um coworking próximo ao endereço de Paulo Henrique.
Entre janeiro de 2023 e agosto de 2025, a Isabela V R O Ltda. transacionou impressionantes R$ 255,38 milhões, apesar de ter um capital social declarado de apenas R$ 100 mil. Desse montante, cerca de R$ 18 milhões foram recebidos da Arpar. Além disso, a empresa também recebeu R$ 1,6 milhão da Dinar, outra companhia sem empregados que também está sob investigação como parte da engrenagem financeira. Paulo Henrique, por sua vez, transferiu R$ 492 mil para a Isabela V R O Ltda. e recebeu dela R$ 1,56 milhão. Ele também obteve R$ 462 mil da JK Global, empresa citada em outras fraudes do INSS, e repasses de outras empresas investigadas, como a Recovery Black, descrita como mais uma companhia de fachada.
O fato de a suposta proprietária formal da Isabela V R O Ltda. ter recebido apenas R$ 20.440 da empresa durante todo o período analisado levantou suspeitas adicionais por parte dos investigadores, sugerindo que ela seria uma “laranja” no esquema.
A investigação da PF sobre os descontos ilegais na Seguridade Social, conhecida como “Farra do INSS”, é um dos pilares que sustentam a apuração do esquema de lavagem de dinheiro. O Ministério Público do DF (MPDFT) anexou o inquérito da PF a uma Ação Civil que investiga um esquema de descontos associativos irregulares em contas de clientes do Banco de Brasília (BRB).
O MPDFT argumenta que o esquema investigado no Distrito Federal reproduz o mesmo padrão operacional identificado nas fraudes do INSS, utilizando entidades associativas para legitimar cobranças indevidas, sem autorizações válidas e com foco em idosos e pessoas hipervulneráveis. A associação Centro de Assistência e Integração dos Servidores Públicos (Cassisp), também operando em coworking, foi criada por Adelino Rodrigues Junior, um dos presos por envolvimento nos descontos ilegais em aposentadorias e pensões de beneficiários do INSS. Adelino, que era sócio de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e Samuel Messias dos Santos, teve a presidência da Cassisp passada para Regina Pacheco Cataneo, que permanece no cargo.
A Polícia Civil do DF (PCDF) estima que mais de 3,5 mil contas foram afetadas, com um prejuízo inicial superior a R$ 5 milhões. Sete pessoas ligadas à Cassisp e a outras associações foram presas durante a Operação Parasita, sendo que três delas já tinham participação em outras investigações da PF de fraudes no INSS. O delegado Henry Galdino, responsável pelo caso, destacou que “praticamente todos os presos tinham passagens por crimes da mesma natureza”.
O BRB, por sua vez, informou ter encaminhado a notícia-crime às autoridades policiais após a identificação das irregularidades e afastou três empregados de suas funções até a conclusão das investigações. O banco repudiou “quaisquer práticas criminosas”, especialmente aquelas que violam direitos de públicos vulneráveis.
As investigações continuam, e as implicações para os envolvidos, incluindo a empresa ligada ao diretor da Congregação Cristã no Brasil, podem ser severas. A lavagem de dinheiro é um crime grave, com penas que podem incluir prisão e multas vultosas. O envolvimento de uma figura ligada a uma instituição religiosa adiciona uma camada de complexidade e sensibilidade ao caso, exigindo uma apuração rigorosa e transparente.
A Congregação Cristã no Brasil foi acionada para se pronunciar sobre o caso, mas até o momento da publicação desta reportagem, não havia se manifestado. A defesa dos demais envolvidos também não foi localizada. O espaço permanece aberto para futuras manifestações.
Este caso ressalta a importância da vigilância constante e da atuação firme das autoridades para desmantelar esquemas de lavagem de dinheiro que corroem a economia e a confiança nas instituições. A sociedade aguarda por respostas e pela responsabilização de todos os envolvidos neste complexo enredo de fraude e corrupção.
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